Cap.8 - Aos Cuidados da Ysa
- © by ysaflor
- 4 de nov. de 2019
- 15 min de leitura
Atualizado: 23 de jan. de 2023

— Bom dia, D. Ysa.
— Bom dia, Dalva, cadê Ana?
— Não levantou ainda.
— Aff! Ana tá dormindo demais ultimamente, por que será?
— Cansaço, D. Ysa. Ela tem trabalhado muito.
— Não, Dalva, já viajamos bem mais. Agora Ana só viaja 2x no mês. Antes viajávamos toda semana, pelo menos duas vezes.
- Ah, dona Ysa. Então não sei ... Dona Ysa, interfone. É o Bruno. O que faço?
- Manda ele subir, Dalva , que coisa!
- Mas D. Ana tá dormindo ainda.
- Não tem problema, eu acordo ela, deve ter perdido o horário, temos reunião hoje.
— Ok.
— Separa os biscoitinhos pra o Bruno levar, que ele adora.
—Ok, D. Ysa.
Fui em direção ao quarto de Ana.
— Ana, Ana, acorda! Ana, vou me jogar em cima de você.
— Oiiii Ysa, bom dia minha Flor!
— Bom dia nada Ana, são 8 hs. O que tá acontecendo mulher?
—Sei lá, indisposição.
— Ana, você devia ir ao médico. Ficaria mais despreocupada.
— Ysa, é só cansaço, tô beirando os 40, Ysa.
— Ana, eu com 40 vou ter 20, e você devia fazer o mesmo - falei abrindo a cortina.
— Eu odeio quando faz isso.
— Eu sei, mas o dia ta lindo! Você precisa ver esse céu azul, é um pecado não admirá-lo, Ana! Olha isso, que espetáculo!
— Ai meu olho, Ysa.
— Ana, você tá mais inchada que o normal. Deixa eu ver seus olhos aqui com a lanterna do celular. Olha pra cima.
— Ysa, você não é médica, tira essa luz do meu olho.
— Não sou, mas estudo. Ana, deixa eu ver suas unhas. Suas mãos e seu tornozelo estão bem inchados.
— Quero novidade, Ysa.
— Não, Ana, você não tem que encarar isso como normal, porque não é. Você tá com algum tipo de dor?
— Não, só indisposta.
— Ana, temos reunião hoje. Bruno já está ai.
— E você me fala agora, 10 minutos depois?
— Sua saúde em primeiro lugar, Aninha, e ele tá com a Dalva tomando um chazinho.
— Esqueci completamente.
— Ana, você tá bem?
— Tô, Ysa, que coisa!
— Vou preparar seu banho e seu chá, por favor não coma nada antes do chá, ok?
— Tá doutora Ysa Flor. Me sinto em uma consulta com você, sabia?
— Olhe, Ana ...
— Sério, você seria uma ótima médica.
— Já tenho profissões demais, aí vou deixar de ser 17 para ser 18 ...
— Jesus, você é baixinha mas, olha, vale por mil...
— Aninha, vou preparar seu banho.
— Ok, filha.
Ela me segurou pela mão
— Ysa.
— Oi.
— Obrigada por cuidar tanto de mim.
— Ai, Ana, cuidado não se agradece.
Ana era minha melhor e fiel amiga. Pra ela eu podia contar tudo. Até aquilo que eu nunca contei a ninguém, só Ana sabia. Ela também me contava tudo. Éramos as conselheiras uma da outra. Nos entendíamos muito bem, a nossa amizade era incrível e aconteceu de forma natural. Tínhamos e temos uma conexão muito forte, e acima de tudo um respeito muito grande uma pela outra, e isso nos fazia amigas especiais. Mesmo sem entender o motivo, eu me sentia tão ligada à ela que eu sabia até quando ela estava com dor, porque eu também sentia. E foi assim que eu descobri que Ana era Diabética. Comecei a sentir os sintomas, mas meus exames davam normais, e um dia observando ela eu percebi que não era eu, e sim ela. Então insisti muito que ela fosse ao médico, e ela sempre muito cética olhou pra minha cara e me chamou de “Mãe Ysa”.
— Ana, tô falando sério, você tem diabetes, eu sinto muito te dar essa informação assim, mas fica tranquila porque hoje a gente vive muito bem, é uma doença super controlável se você respeitar suas restrições.
— Você tá louca, Ysa? Você agora virou médica também? Menina, como você dá um diagnóstico sério desse a uma pessoa assim, do nada? Eu já passei por uma consulta. E outra, não vou a lugar nenhum. Eu não tenho diabetes! Eu tenho estes sintomas, os médicos falam que é estresse e retenção de líquido.
— Esse médicos de hoje não querem nada. Pois a senhorita vai sim porque eu sei o que eu estou dizendo. Ana, isso é grave, e você comendo açúcar e carbo, tá louca ? Você sabia que isso pode te matar? Você não fica nem mais um dia em casa sem ir ao médico. Anda Ana, vai se trocar que eu vou te levar!
— Ysa, não vou sair, trabalhei até tarde ontem, cheguei cansada.
— Ah, que lindo, e eu não? Também trabalhei até tarde ontem e acordei hoje as 6, tô até agora de pé, então não me venha com mi-mi-mi. Você vai, e ponto final!
— Você é minha assistente e não minha médica . Nem minha mãe fala assim comigo.
— Deve ser por isso que você é teimosa assim. Se você não for, dona Ana Carolina, eu não saio da sua cola, e nem eu e nem você dorme hoje.
— Como assim?
— Ah, você vai ver, Vou parar de procurar casa pra alugar hoje mesmo. Hoje, amanhã e todos os dias da sua vida não saio da sua casa até você ir ao médico.
— Não acredito — ela falou dando gargalhada.
— Acredite! Eu não vou deixar uma pessoa diabética sozinha, se matando no carboidrato. Tô indo agora na sua cozinha fazer uma limpa. Dalva!!! Me arruma um saco plástico, por favor. E você, Bruno, para de comer minhas bolachinhas e pode vazar, não tem mais reunião hoje!
— Ah, Ysa, logo agora que tava divertido! Adoro essas bolachinhas.
— Tem um pote pra você em cima do armário, pode levar!”
— Ana Carolina, essa é a melhor assistente que você já teve em toda a sua vida. Dá aqui um beijo, amiga. Fui, até amanhã. Tchau, Aninnha!
— Ei, cala boca que quem chama ela de Aninha sou eu.
— Deixa ele, Ysa. Ele é um querido. Tchau, Bruno, depois te ligo. Ysa, o que você está fazendo? Ysa, espera aí, não, não toca nos meus pães!
Abri o armário e fiquei horrorizada.
— Ana, quanto pão é esse?! Ana, você tá comendo açúcar refinado? E o que é isso, Ana, é margarina? Você quer se matar, é?! Olha, isso aqui vai pra o lixo porque eu não tenho coragem nem de dar a um mendigo. Ana, você sabia que margarina é tão prejudicial que nem barata quer? Sério!!! Você pode colocar no chão que nem os insetos chegam perto porque sabem que mata. Os animais estão mais conscientes que alguns humanos. Misericórdia!
— Ysa, pelo amor de Deus, você tá jogando minha feira no lixo?
— Não, Ana. A feira eu vou doar para uma instituição de caridade que tem aqui no bairro, e o açúcar refinado e as margarinas infelizmente não tenho o que fazer, vai para o lixo. Eu amo você demais pra te ver se matar e não fazer nada.
— Ysa, isso custou dinheiro sabia?
— Sério, Ana? Então aprenda a não gastar com porcaria! Você prefere um dia sem dinheiro ou um dia sem vida? Reflita nisso.
— Ai Ysa, você faz cada pergunta... Olha aqui, tô arrepiada. Quero saber se você virou algum tipo de nutricionista agora que sabe o que posso ou não comer.
— Por incrível que pareça, Ana, eu não sou leiga no assunto. Posso não ter o papel de nutricionista, mas estudo nutrição desde meus 12 anos de idade, então respeita a minha história. Eu sou mais informada que muitas nutricionistas de primeira viagem, pode apostar.
— Cada dia que passa eu descubro algo novo sobre você, onde isso vai parar? Já nos conhecemos há tanto tempo e ao mesmo tempo eu vejo nascer uma nova Ysa bem na minha frente. Você é um ser enigmático, sabia? Apesar de não acreditar em aliem, eu tenho certeza que você é uma etezinha.
— Ana, há tanto tempo e ainda você não aprendeu nada sobre mim?
— Aprendi que cada dia você ganha novas habilidades e poderes sobrenaturais, como isso acontece?
— Ana, você quer deixar de graça e me ouvir? Ou você prefere ser surpreendida com uma crise?
— Credo, Ysa!
— Pois você quer saber os próximos sintomas? Pois eu sei de cor.
— Ysa, dessa vez você tá errada, nunca tive diabetes.
— Nunca teve, mas pode ter desenvolvido. Ana, só os exames podem te provar o que eu estou falando, já que você precisa de um pedaço de papel para acreditar em mim.
— Ysa, não fala assim, você sabe que confio em você.
— Não Parece.
— Então você dá uma de minha babá?
— Babá não, cuidadora.
— Me respeita, Ysa, não sou nenhuma idosa.
— Kkkkkk, tá chegando perto, né Ana ? E pelo visto, comendo esse tanto de porcaria não vai demorar muito. Ana, você precisa fazer escolhas na vida e escolhas nem sempre são fáceis, mas as escolhas saudáveis podem te levar a um outro patamar energético, espiritual e físico, acredite em mim. Eu vou mudar toda sua alimentação. Eu que faço suas compras a partir de hoje.
— Você sabe o que posso ou não comer e o que gosto?
— Sei, Ana. Sei melhor que você mesma. Sei tudo que você adora comer e tudo que você não gosta. Na verdade, você não gosta de fazer o que dá trabalho, por isso você opta por essas sopas sem um pingo de vitamina processada e industrializada.”
— Mas eu como coisa saudáveis também.
— É Ana, você só come bem quando eu estou aqui. A semana que não estou aqui você come só isso aqui, lixo Ana, toxinas!!! E te desintoxicar vai ser difícil, mas você vai ver como vai te fazer bem. Agora eu entendo esse seu inchaço. Não adianta fazer dieta da sopa. Ana não é só gordura, é mais... É inchaço provocado pela sua alimentação e mais retenção de líquido que gordura. A gente vai começar desintoxicando, já que você não que ir na nutricionista. Acabou a graça de chocolate na bolsa. Passa a bolsa.
— De jeito nenhum - falou ela abraçando a bolsa.
— Ana Carolina, passe essa bolsa.
— Minha boceta.
— Isso mesmo, você tá achando que tá me oferecendo outra coisa querida? Olha, sinto muito te informar, mas a palavra boceta quer exatamente dizer bolsa, você sabia ? Antigamente, nas festas, os jovens falavam exatamente assim: “passa a boceta”, que era uma bolsa pequena onde eles escondiam a erva pra atravessar de balsa. Então, amore, você fez a associação correta, viu como você é inteligente? Anda, Ana Carolina.
— Você não vai tirar meus chocolates. Tudo, menos isso. Pode levar ao pães, os biscoitos e tudo o que quiser, mas o chocolate não. Você tá sendo muito radical, sabia? Nunca vi se iniciar uma dieta assim, uma nutri não ia fazer isso.
— Ana, me responde uma coisa: O que adianta diminuir a dose do veneno se no final ele vai matar de qualquer jeito? O que você tá fazendo é trocando doses altas por doses menores . Pensou nisso?
— Não quero pensar.
— Por isso que você come isso aqui. Ninguém nunca te ensinou a ler rótulos, não?
— Eu leio!
— Então me diga o que que é sacarose e Maltodextrina?
— Sei lá!, E eu lá sou nutricionista pra saber isso?
— Dextrose é sinônimo de glicose, que gera pico de insulina em energia não aproveitada que se armazenam no corpo em forma de gordura. Vou te dar alguns possíveis nomes que você tem que analisar antes de comprar um produto porque estão todos disfarçados, mas todo eles são Açúcar: frutose, sacaroses, glicose, dextrose, maltodextrina, açúcar moreno, açúcar demerara, açúcar light, açúcar magro, açúcar invertido, mel, agave, xarope de milho ....
— Que isso menina, como você grava tudo isso? Parece Uma bíblia ambulante. - Costume de ler rótulos, Aninha, já acostumei e você também vai aprender. Outra coisa, Aninha, esse açúcar aqui que você consome vicia igual a cocaína.
— Você tá exagerando, Ysa.
— Não tô não, Ana. Isso foi comprovado cientificamente. Então faz mal até para quem não tem diabetes, imagina pra você. E eu não vou ficar sofrendo seus sintomas por osmose.
— Como assim?
— Ana, deixa pra lá, você é muito cética, não acredita em nada que eu falo
— Não é bem assim, Ysa, eu nunca duvidei de você.
— Ah, não? E o que é isso, essa resistência a me ouvir?
— Medo que você esteja certa e eu não possa seguir em frente na minha profissão.
— Vem cá mulher, deixa de besteira. Você vai seguir em frente e além, e comigo aqui bem melhor que antes. Seus fãs vão conhecer a nova Ana Carolina, repaginada, esbanjando saúde, linda e loka, deixa comigo.
— Ysa, você não existe.
— Ah é? E quem tá aqui na sua frente?
— Sinceramente? Tem horas que não sei. Mas eu não vou ao médico.
— Tá bom, eu trago ele e a equipe do laboratório aqui, não tem problema.
— Você não vai fazer isso, né Ysa?
— Imagina Ana, você acha que tenho coragem?”
— Olhe Ysa, não apronte. Amanhã vou acordar primeiro que você e vou cedo pro escritório, tenho uma reunião com a equipe cedo.
— Claro que eu sei, Ana, foi eu quem marquei a reunião esqueceu?
— O interfone tá tocando vou atender.
— Quem será uma hora dessa, Dalva?
— Dona Ana, os médicos chegaram.
— Quais médicos?”
— Ok, D. Dalva, peça a eles pra subir.
— O que significa isso, Ysa?
— Ana, você acha que sou lerda? Respeita a minha história. Você acha que ia deixar você sem atendimento?
— Não tô acreditando.
— Calma, Aninha, vai dar tudo certo.
— O que vou dizer ao médico, Ysa? Não tô sentindo nada. Vou dizer que você tomou um alucinógeno e acha que tenho diabete. Que situação!
— Não, Aninha, você só precisa dizer a verdade. Conte a ele os sintomas que teve a semana inteira, e deixe ele dar o diagnóstico. A moça do laboratório está com ele, o resultado do exame fica pronto em 1 hora. Chegaram, vem aqui.
— Oi Dr., bom dia!
— É essa a moça teimosa que se recusa a ir ao hospital?
— Ela mesmo.
— A famosa Ana Carolina, quem diria.
— Oi Dr., desculpa o trabalho, não sabia que viria aqui.
— Não se preocupe, a Ysa já me explicou. Me diga, o que você sente?
— Eu senti umas tonturas matinais e a Ysa ficou preocupada, é só isso dr.
— Alguma possibilidade de gravidez?
— Não Dr., a Ana ainda não é a virgem Maria. Filho aqui só se for do Espírito Santo.
— Sua assistente é uma figura.
— E eu não sei?
— Bem Ana, devido aos sintomas que a Ysa me contou eu preciso pedir exames de sangue, ela pode colher?
— Pode sim, mas já vou falar que tenho trauma de agulhas.
— Olhe o seu tamanho Ana, nem combina um mulherão desse com medo de uma agulhinha. Você não vai desmaiar, vai? Dr., por favor, vamos sentar ela ali, caso desmaie já tá no divã.
— Boa ideia, Ysa. Ela sempre pensa em tudo?
— Sempre, Dr., te garanto que ela já tem a lista de medicamento.
— Ah não, sem prescrição ela não conseguiria comprar. Se você tiver mesmo diabetes e dependendo do grau vai precisar fazer uso de insulina.
— Calado os dois, e sinto muito pelos seus anos de estudo e experiência, mas eu estou preparada. Quando vim falar com Ana eu já vim certa, e como sou precavida passei na farmácia e comprei todos os remédios que o doutor vai te prescrever.
— E como você sabe o que vou prescrever?
— Anos de palestras de medicina, vários amigos médicos e muito estudo Dr., não tenho papel, mas tenho cérebro.”
— Nossa Ana você tem uma doutora em casa
— A Doutora eu conheci hoje. Mas tenho advogada, palestrante, produtora, masterchef, administradora, assistente, maquiadora, personal, investigadora, policial... e tudo isso em uma só.
— Meu Deus, Ana, onde você encontrou essa figura?
— Nem eu sei Dr. Às vezes ainda acho que não estou lúcida e que vou abrir os olho e ela não vai estar aqui, porque até hoje ela me parece uma alucinação.
— Então eu devo estar chapado porque pra mim parece de carne e osso.
— Acho que vocês estão tirando sangue da pessoa errada. Deviam tirar o dela e levar pra NASA estudá-la.
— Engraçadinha...
— Aiiiiii, ta doendo.
— Ana, é só uma picadinha, deixa de frescura.
— Porque não é teu braço.
— Eu não sou tão sensível como você, Ana.
— Fisicamente você é forte, mas conheço um lado mais sensível que o meu.
— Ana fecha o bico, não estraga a minha reputação.
— Pronto Ana, daqui a uma hora ligo para dar o resultado e se precisar mando a receita por e-mail.
— Ok Dr., muito obrigada.
— Obrigado eu. Tchau, Ysa.
— Tchau. Vou ficar esperando a ligação Dr., pode ligar direto no meu número, a Ana não vai entender nada do protocolo médico.
— Ok, ligo sim.
— Muita gratidão.
— Dalva, acompanhe eles até a porta.
— Ok, D. Ana.
— Ysa, o que foi isso?
— Isso o quê?
— Pra que isso?
— Não reclama Ana, é pro seu bem.
— Não precisava disso. Eu ia fazer o exame amanhã. Sua taquara rachada parece uma mola no meu ouvido.
— Nunca deixa pra amanhã o que você pode fazer hoje. Sou a sua taquara rachada favorita, fala a verdade.
— Pior que não consigo ficar brava com você, que raiva!
— Raiva por não conseguir brigar comigo? Essa foi boa, viu Ana?! Vou tomar banho. Me espera que vou fazer seu café. Não se atreva a desobedecer. D. Dalva, pode descer com essa feira, peça ao Tadeu pra levar na instituição de caridade que a Ana ajuda.
— Ok.
— Já volto pra fazer seu café . Vê se não apronta.
— Ta. Eu também vou tomar meu banho, estou exausta. Não sei de onde você tira tanta energia.
— Faz parte, Aninha.
— Fui pro banheiro e de lá tava ouvindo o barulho de papel de doce. Saí do chuveiro molhada, enrolada na toalha. Abri a porta do quarto e lá estava Ana devorando um chocolate.
— Bonito! Que bonito! - gritei tomando o chocolate da mão dela. - Oh Ana, até esse resultado sair você não vai colocar açúcar na boca, você entende isso?
— Eu só tô aproveitando, Ysa. Vai que eu não possa mais comer meu chocolate favorito.
— Meu deus, Ana, bem não começamos o tratamento e você já tá me dando esse trabalho?
— Eu?
— Não, minha vó. Onde está seu filho que você tanto fala e que uma hora dessa nem aparece aqui?
— Vou ligar pra ele. Ele passou o dia comigo ontem. Almoçamos juntos. Hoje ele nem vem aqui e não vai ligar. O resultado nem saiu ainda, Ysa. Não preocupe ele.
— Ok, mas assim que você receber o resultado eu ligo. Alguém precisa cuidar de você quando eu não estiver aqui. E quando eu precisar viajar e ir em meu outro trabalho, quem vai cuidar de você?
— Eu mesma.
— To vendo como você se cuida.
— Você tá falando de qual trabalho, Ysa ? Do de agente, que você só vai uma vez na semana?
— Sim, Ana, esse mesmo. E fale baixo, já disse a você pra não falar em voz alta, pode ser perigoso pra você. Não é bom os empregados ouvirem, e se eles comentarem com alguém tô perdida em qualquer disfarce nessa cidade.
— Desculpe, detetive. Ysa, tem uma mina no Rio, precisava levantar umas informações.
— Não, Ana, já falamos sobre isso. Ana, onde tá sua ética profissional?
— Eu não tenho, kkkkkk.
— Mas eu tenho!
— Ysa. você quando fica preocupada fica chata pra caralho, sabia
— Sinto muito se me preocupo com você, Ana.
— Ave Maria, tá sensível a minha baixinha. Da aqui um abraço na sua amiga, vá.
— Me solta, Ana. Deixa de grude, vou acabar o banho mas eu volto pra fiscalizar cada canto desse quarto. Se tiver chocolate escondido eu vou te internar em um spa.
— Eu sou de maior e vacinada, Ysa Flor. Pra você me internar eu preciso concordar.
— Quem disse?
— Precisa da minha assinatura.
— Não esqueça que eu sei falsificar assinaturas.
— Vai presa.
— Quem vai me prender? Seu amigo delegado que só falta babar em cima de mim?
— Vai ser processada.
— Não esqueça que sou a melhor advogada que você conhece. Ganho a causa em minha própria defesa.
— Ahhhh, vá a merda.
— Já desistiu? Achei que teria mais argumentos. Olhe Ana, vou tomar banho, deixe de graça, já, já preparo o café.
— Mas eu tô com fome, não dá pra esperar
— Ana, preparo o café em 10 minutos.
— Ah esqueci que você tem 6 mãos e é a dona do tempo.
— Muito obrigada por lembrar.
Saí e voltei ao banho, quando o meu celular toca.
— Ai, meu Deus, hoje não consigo terminar esse banho. Mas vou atender, deve ser o doutor.
— Ysa falando.
— Oi Ysa, as notícias não são boas. A Ana tem diabetes tipo 1.
— Sim, eu sei.
— Me diga, como você sabia?
— Pelos sintomas Dr.
— Mas ela disse que não contou nada a ninguém...
— Eu sei, mas sou muito observadora, fora que eu também senti os sintomas dela.
— Como assim, você também tem diabetes?
— Não Dr., Eu e Ana temos uma ligação muito forte. Mas deixa isso pra lá, não é nada cientifico, o senhor não vai entender.
— Ok. Não mandei a receita porque pelo que vi você acertou nos remédios que comprou. Preciso falar os horários?
— Não Dr., eu sei sobre a administração do medicamento. Mas mesmo assim gostaria que mandasse no celular dela, porque a Ana é teimosa, acho que ela vai se sentir mais segura com a prescrição.
— Ok, mando sim.
— Ysaaaaa!
— Oi, Ana.
— Tá falando com quem? É o médico?
— Já tô indo aí, Aninha, só vou acabar meu banho.
Fiquei no chuveiro imaginando como Ana ia ficar abalada. Apesar de eu já ter dado a notícia, eu sabia que no fundo ela ainda não tava acreditando. Eu fiz uma oração no chuveiro e pedi pra tá no lugar dela, mas nem sempre nossos desejos são atendidos. Eu tive tanto medo, não sabia o estágio que ela estava e se só por controle da alimentação e insulina ia ser suficiente. Ana era a pessoa mais próxima de uma mãe que eu tive depois que perdi a minha, e eu tinha que saber lidar com meus sentimentos e não deixar transparecer o medo. Algo me dizia que o meu equilíbrio emocional seria o que ela mais precisaria naquele momento. E foi o que fiz. Saí do banho, fui correndo na cozinha, preparei um café, ovos e bacon e coloquei uma sopinha de legumes no fogo. Ficaria pronta enquanto tomássemos o café. Bati na porta do quarto. Ela disse: - entra - com uma voz baixa.
— Oi Aninha, o café tá na mesa e a sopa de legumes que você gosta sai em 15 minutos, mas fiz ovos com bacon.
— Os seus ovos são os melhores.

— Mas antes tenho uma coisa pra falar.
— Não sei o que vai falar, mas pela sua cara...
— Então, não tenho nada a falar que eu já não tenha dito.
— Tenho diabetes mesmo?
— Tem Aninha, mas agora é melhor porque sabemos e temos como tratar.
Você vai tomar os medicamentos, vai controlar a alimentação, e você vai ver que vai ficar ainda mais linda. Ana, hoje com acompanhamento você pode levar uma vida normal.
Abracei ela, e ela disse:
— Ainda não caiu a ficha.
— Eu sei, mas vou cuidar de você, vamos tomar café.
— A sopa tá cheirosa.
— Nunca vi gostar tanto de sopa, valha-me Deus!
— Ah, mas não gosto de qualquer sopa, tem que ser a sua sopa. O que você fez com a Dalva?
— Mandei pra casa, né Ana, é trabalho escravo é?
— Fiquei tão atordoada com essa história que esqueci de libera-la. Obrigada, Ysa.
— Não agradeça, Ana. Você sabe que faço de coração.
— Sei, por isso a sua presença é tão especial. Sabia que nunca vi você reclamar de nada? Eu pareço uma taquara rachada.

— Kkkk, faz parte, tem o Ying e o Yang para equilibrar.
— Tá me chamado de Yang? Eu quero ser a parte branca.
— Não tem problema, Ana, eu adoro o lado negro, se não fosse por ele o lado branco não existiria. Na verdade um não vive sem o outro.
— kkkkk. Você não tem nada a ver com o lado negro, nem combina com você.
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Ysa Flor
Serendipity 11:11
O portal do Amor
Capitulo 8
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